Bibliomania: Terror e Prisões Mentais
Há mangás que contam uma história.
Outros, mais raros, devoram o leitor junto com ela.
Bibliomania é uma dessas obras estranhas, desconfortáveis e fascinantes, daquelas que você fecha o volume e fica alguns minutos olhando para o nada, se perguntando se o problema estava no livro… ou em você.
Publicada originalmente entre 2016 e 2018, em formato digital, a obra assinada por Orval (roteiro) e Macchiro (arte) rapidamente conquistou status de cult, especialmente fora do eixo tradicional dos mangás comerciais. E não é difícil entender o porquê.

Uma Alice que não quer ficar no País das Maravilhas
A premissa é simples e exatamente por isso, cruel.
Alice acorda no Quarto 431 de uma mansão infinita.
De repente, uma Serpente estranha e vestida como um anfitrião a alerta: “Não saia.”
Alice, como toda boa personagem que não aceita um mundo pronto, sai.
Cada porta atravessada leva a um novo quarto, um novo desejo, uma nova fantasia… e um novo preço. O corpo de Alice começa a apodrecer, se deformar, se desfazer. A regra daquele mundo é clara:
👉 quanto mais perto da saída, mais longe da humanidade.
Aqui, Bibliomania faz algo raro: inverte a lógica clássica da fantasia.
O paraíso não é salvação, é estagnação.
A dor não é castigo, é consciência.
Horror psicológico, mas com raízes bem antigas

Visualmente, Macchiro joga fora quase tudo que se espera de um “estilo mangá padrão”.
Nada de retículas confortáveis ou personagens excessivamente idealizados. No entanto, o que vemos são hachuras densas, texturas sujas, corpos que misturam carne, desejo e objeto. É impossível não lembrar da tradição europeia, Moebius, gravuras antigas, ficção científica dos anos 70.
E isso não é só estética. É discurso.
Alice, com seu design quase infantil e limpo, parece fora do lugar. Pequena demais. Clara demais. Humana demais. Sem sombra de dúvidas, um erro dentro daquele livro vivo.
A mansão como metáfora da bibliomania
Aqui o mangá começa a mostrar os dentes.
Cada quarto representa um desejo humano levado ao extremo: juventude eterna, prazer infinito, conhecimento absoluto. Os “hóspedes” parecem felizes, mas estão imóveis, presos, apodrecendo dentro da própria fantasia.
E então vem o soco filosófico:
Bibliomania não é amor aos livros.
É a doença de colecionar mundos mortos.
A mansão não é apenas um lugar.
Ela é uma biblioteca.
E a Serpente não é apenas um vilão, ela é o Autor, o Bibliotecário, o Demiurgo que mantém histórias girando em ciclos fechados.
Alice é um Deus Ex Machina?
Aqui entra o ponto mais polêmico, e mais interessante.
Do ponto de vista da narrativa clássica, sim: Alice não “merece” o poder final. Ela não treina, não evolui, não vence o antagonista por força ou estratégia.
Mas Bibliomania não é uma jornada do herói.
A virada não é física. É metalinguística.
Alice vence quando percebe que aquilo é uma história. Ao chegar ao Quarto 000, ela deixa de ser personagem e assume o papel de leitora e autora. O poder não surge do nada. Surge da consciência.
É como um personagem de desenho animado que percebe que pode pegar a borracha do desenhista.
Elegante. Incômodo. E brilhante.
A mensagem final (e a mais cruel)
E aqui está o detalhe que torna Bibliomania inesquecível.
Alice não liberta o mundo.
Ela assume o controle.
O ciclo continua.
A obra sugere algo perturbador: talvez não exista saída. Criar histórias e consumi-las pode ser apenas trocar de prisão. A ficção não salva, ela substitui.
É uma crítica direta ao escapismo.
E, ironicamente, feita dentro de uma obra de fantasia.
Por que Bibliomania importa (especialmente para quem desenha)
Para quem estuda arte, narrativa e quadrinhos, esse mangá é um prato cheio:
- Uso de escala para gerar opressão narrativa
- Distorção anatômica sem perder estrutura
- Contraste visual como ferramenta psicológica
- Ritmo de leitura pensado como descida literal
É uma aula silenciosa, daquelas que não explicam nada, mas ensinam tudo.
Conclusão: nem todo livro quer ser aberto
Bibliomania não é confortável.
Não é gentil.
E definitivamente não é para todos.
Mas para quem gosta de mangá como arte, como linguagem e como reflexão, essa obra é uma porta que vale a pena atravessar, mesmo sabendo que algo em você vai ficar para trás.
E talvez… esse seja exatamente o ponto.
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📌 Observação de transparência
Todo o conteúdo acima é baseado na leitura da obra e em análise crítica. Onde há interpretação simbólica, isso é leitura analítica, não fato histórico.
